quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Antiofídico.
Passada a vista na caracada já ia eu voltando 
na direção da devintona quando me deparei 
com uma rês prancheada debaixo dum angico. 
Fui ver. 
Era a Sete Copas.
Eu a imaginei morta. Mas não: estava com a pata dianteira inchada
até os cascos.
Cutuquei e ela levantou.
Fui tocando num vagar de passo até o curral.
Minha cabeça atinava:
- Será cobra?
- Terá enfiado a pata em buraco de tatú?
- Marimbondos?
A cara dela estava boa: não babava nem nada.
Pus no tronco e apliquei o que havia.
Depois soltei pras bandas da lagoa, vigiando.
Ela nada de beber água. O jeito foi voltar à cidade.
Liguei pro meu amigo Alberto e descrevi o quadro.
Nas veterinâncias ele vaticinou: É cobra,
certeza!
E lá fui eu, de novo, pra barra do Piancó.
Repeti tudo igual. Com ela, agora, mais arisca, escoiceando.
Injetei o soro e também um antialérgico.
Soltei na manguinha da macaúba
e me abriu um sorriso generoso:
ela pastava, a danada,
faminta,
às bocadas.
Esperei.
Fiquei vendo aquele milagre um tempo.
Amanhã será um outro dia de lida e penso vê-la melhorada, pacata, altiva,
como no truco.
E que os Santos Reis continuem protegendo o rebanho.
Das cascavéis, das onças, e também da gatunada noturna
amiga do alheio.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

E é. Desse jeito mesmo que as coisas aconteciam aqui em casa. Não mais agora que deixei o leite. Tem bem um tempo que vendi a vacada leiteira e só cuido de caracas parideiras. Mas me lembro bem da berração de manhã cedo no curral, das peias penduradas no ombro, do banquinho mono perna amarrado na cintura e do balde de lata apoiado entre os joelhos. Seu pai ainda são muitos por esse sertão afora. E a vida dura dele continua a repetir felicidades simplórias, verdadeiras, nesses gerais.

sábado, 4 de outubro de 2014

Meu sábado clareou na lida.
A devintona surfava:
uma curva de nível, outra,
outra, outra,
escapulindo de tocos e cupins.
Com o sol na cacunda
descia atrambolhada a pastaria
da vargem do Piancó.
Fui lá conferir o gado.
E pariram mais quatro.
A Chorosa, a Neguinha, a Baleia e a Patroa.
Por quatro também multipliquei
o meu sorriso.
Curei umbigos, bicheirinhas.
Apartei, vermifuguei...
Agora estou deitado no ladrilho da varanda.
Respirando os vapores perfumados
vindos da cozinha.
Fundo, o meu estômago tagarela
entoa protestos em esperanto.
Respondo-lhe em pensamento:
Espere que “A fome é o melhor tempero”.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Fui curar uma bicheirinha no encavadouro do rabo da vaquinha roxa e um marimbondo-tatú acabou me ferroando. Ossos da lida. Havia uma caixopa no moirão da porteira da seringa e eu não vi. Um cavalão preto, o danado. Mais doeu! Me consolou a lembrança da minha prima dizendo: é bom! Pros nervos é um santo remédio. Ruralidades cotidianas nas beiradas do Piancó.