quarta-feira, 29 de julho de 2015

A chuva continua, ainda. Chorando todos os meus risos. Colorindo de verde o horizonte dos meus olhos..

A Fortuna havia me escapado. Passou dois ou três dias pastando lá na vargem do meu vizinho. Foi um custo trazê-la de volta. Tive de fechar todo o gado no curral para depois ir no encalço da danada. Eu chamando e ela negaceando, desconfiada, astuciosa. O jeito foi esperar o tempo dela. Ao se ver sozinha foi beirando cercas até emparelhar com o gado fechado. Abri a cancela e ela entrou. Agora estou mais tranquilo.Passarei meu dia mais confortado. Embora um pouco mais magra a Fortuna está de volta aos meus domínios.Poderei por fim tomar minha Pirassunungasossegado. Foi um presente dos Santos Reis protetores das minhas mimosas. E da barra do Piancó.

Minha cabeça meneava e meus olhos varados serpenteavam a estrada.A poeira tinha a cor do por-do-sol.Um ocaso sanguíneo, granulado, suspenso no ar.Eu vinha subindo a vargem da Vertentinha com as rodas do Carro rangendo saudades.Uma légua e meia, ainda, das caríciasde siá Dora.Do fogo ateado no rabo dofogão-a-lenha.Do alento amoroso do catrealto na cozinha de pau-a-pique.

Estou cativo. 
Vivem a minha vida, 
não a vivo eu. 
Deambulo num mundo de títeres. 
Linhas quase visíveis manipulam 
o meu devir. 
Sinto prazeres que não são meus, 
tenho vontades artificiais 
inoculadas nos meus sentidos. 
Meu pouco por cento de lucidez juvenil 
se esvai com o vento inexorável dos anos. 
Neves de outono prateiam meus cabelos 
enquanto o bridão do destino 
já não incomoda tanto minhas gengivas. 
Fui um deus 
com minha ousadia, 
com meus sonhos,
com a minha liberdade. 
Sou agora 
apenas um pobre diabo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Antiofídico.
Passada a vista na caracada já ia eu voltando 
na direção da devintona quando me deparei 
com uma rês prancheada debaixo dum angico. 
Fui ver. 
Era a Sete Copas.
Eu a imaginei morta. Mas não: estava com a pata dianteira inchada
até os cascos.
Cutuquei e ela levantou.
Fui tocando num vagar de passo até o curral.
Minha cabeça atinava:
- Será cobra?
- Terá enfiado a pata em buraco de tatú?
- Marimbondos?
A cara dela estava boa: não babava nem nada.
Pus no tronco e apliquei o que havia.
Depois soltei pras bandas da lagoa, vigiando.
Ela nada de beber água. O jeito foi voltar à cidade.
Liguei pro meu amigo Alberto e descrevi o quadro.
Nas veterinâncias ele vaticinou: É cobra,
certeza!
E lá fui eu, de novo, pra barra do Piancó.
Repeti tudo igual. Com ela, agora, mais arisca, escoiceando.
Injetei o soro e também um antialérgico.
Soltei na manguinha da macaúba
e me abriu um sorriso generoso:
ela pastava, a danada,
faminta,
às bocadas.
Esperei.
Fiquei vendo aquele milagre um tempo.
Amanhã será um outro dia de lida e penso vê-la melhorada, pacata, altiva,
como no truco.
E que os Santos Reis continuem protegendo o rebanho.
Das cascavéis, das onças, e também da gatunada noturna
amiga do alheio.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

E é. Desse jeito mesmo que as coisas aconteciam aqui em casa. Não mais agora que deixei o leite. Tem bem um tempo que vendi a vacada leiteira e só cuido de caracas parideiras. Mas me lembro bem da berração de manhã cedo no curral, das peias penduradas no ombro, do banquinho mono perna amarrado na cintura e do balde de lata apoiado entre os joelhos. Seu pai ainda são muitos por esse sertão afora. E a vida dura dele continua a repetir felicidades simplórias, verdadeiras, nesses gerais.

sábado, 4 de outubro de 2014

Meu sábado clareou na lida.
A devintona surfava:
uma curva de nível, outra,
outra, outra,
escapulindo de tocos e cupins.
Com o sol na cacunda
descia atrambolhada a pastaria
da vargem do Piancó.
Fui lá conferir o gado.
E pariram mais quatro.
A Chorosa, a Neguinha, a Baleia e a Patroa.
Por quatro também multipliquei
o meu sorriso.
Curei umbigos, bicheirinhas.
Apartei, vermifuguei...
Agora estou deitado no ladrilho da varanda.
Respirando os vapores perfumados
vindos da cozinha.
Fundo, o meu estômago tagarela
entoa protestos em esperanto.
Respondo-lhe em pensamento:
Espere que “A fome é o melhor tempero”.