quinta-feira, 21 de novembro de 2013
A lida tem seu próprio tempo. Nem adianta tentar antecipar que o imprevisível é o que se sucederá. Por vezes preparo toda a tralha achando que acontecerá coisas e coisas e nada passa. Chego lá na vargem do Piancó e tudo está nas normalidades. Por outras vou só correr a vista na vacada, como hoje, e me deparo com nefandas novidades. Alguma bicheira pra curar. Colocar brinco de cobre em novilha verruguenta. Unha de vaca pra cortar. Fui cedinho pra voltar num átimo e saí do curral com meu estômago pedindo almoço. Mas o bom dessa vida é mesmo isso: o inesperado, o não saber das coisas. De nada adianta correr. Melhor mesmo é olhar tudo com vagar, com olhos lerdos. É mesmo preciso para poder entender o gado. E também a vida. Agora é fazer o prato e repassar o esquecido pelo senso: amanhã ainda será assim.
domingo, 17 de novembro de 2013
O Pacato ficou roliço!
Depois de alguns dias no vedadinho
saboreando o delicioso capinzinho 'derruba velha'
ele se anafou.
Quando chego ele está lá.
Debaixo dalguma sombra, mascando.
Ou lambendo as ancas duma das minhas mimosas.
Nem escapole mais com a proximidade dos meus passos.
Virou manso.
Já ficou dono da pastaria.
Cabeça alta eu o vejo sempre
conferindo a vacada nos limites da Vertentinha.
Que vidinha boa a dele: pastar e cafungar cios.
Vida bovina: 'descomplicâncias'...
Depois de alguns dias no vedadinho
saboreando o delicioso capinzinho 'derruba velha'
ele se anafou.
Quando chego ele está lá.
Debaixo dalguma sombra, mascando.
Ou lambendo as ancas duma das minhas mimosas.
Nem escapole mais com a proximidade dos meus passos.
Virou manso.
Já ficou dono da pastaria.
Cabeça alta eu o vejo sempre
conferindo a vacada nos limites da Vertentinha.
Que vidinha boa a dele: pastar e cafungar cios.
Vida bovina: 'descomplicâncias'...
Ela me disse: vaca "aqui em casa é somente a pele esticada no chão da sala".
Eu retruquei que é assim mesmo,
que vivemos só um pouquinho.
Mas antes do açougue,
ou do cortume,
ela bem que deve ter pastado nalguma baixada,
nalguma vargem maciosa.
Deve ter bebido água limpinha
dalgum ribeirão
e deve ter tido o sossego
dalguma sombra frondosa no meio da pastaria.
Seus olhos de entardecer nunca vão junto.
Eles são hereditários, eternos.
E eu os vejo todos os dias.
Eu retruquei que é assim mesmo,
que vivemos só um pouquinho.
Mas antes do açougue,
ou do cortume,
ela bem que deve ter pastado nalguma baixada,
nalguma vargem maciosa.
Deve ter bebido água limpinha
dalgum ribeirão
e deve ter tido o sossego
dalguma sombra frondosa no meio da pastaria.
Seus olhos de entardecer nunca vão junto.
Eles são hereditários, eternos.
E eu os vejo todos os dias.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Cheguei na Vertente da Moeda a vacada estava toda na manguinha, deitadas com as crias ao lado, mascando chicletes.. Parei um tempo pra apreciar a lindeza delas.. Tudo calmo, pensei! Nada: uma terneirinha vermelha começou a entoar berros. Contei duas vezes e me preocupei. Faltava uma cabeça. Lá fui eu pasto acima atrás do incerto. No longe avistei a Virgínia, uma vaca amarelona, deitada. Me acerquei, rodeei. A cara dela estava boa mas nada de levantar. Levei a bezerra pra perto, nada. Agora estou na cidade. Meu amigo Alberto (veterinário) almoçando nós iremos lá tentar alguma cura. Perplexidades rurais, sinas...
Pequei pelo olvido. Estive pelos lados do Piancó nesse princípio de semana. Percebi uma novilhota caraca com um sinal vermelho na barbela. Pensei comigo: É nada! Apenas algum carrapato caído. Ou arranhão em árvore espinhosa. Dei por olhado o plantel e voltei pra cidade. Nem me lembrei mais disso. Ao voltar por lá, hoje, constatei o estrago feito. Uma bicheira feia lhe comia parte da barbela. Grande mesmo de caber a mão. Reuni o gado, fechei no curralzinho da vargem e fui ver de perto, no tronco. A danada não deixava de atarantada que estava. Coloquei-lhe a formiga nas ventas, amarrei bem e curei.Unguento, prata e um larvicida pour-on, para garantir.É isso: um descuido que seja e o leite entorna.Soltei a bichinha no meio da vacada e fui despontando pra acurar a conta enquanto apreciava a subida delas pra cabeceira, em fila,emagrecidas por essa seca infinda,por esses dias vulcânicos.
Nem bem começo a encher o balaio e a vacada vem correndo me rodear. Assim é todos os dias: vou distribuindo balaiadas e mais balaiadas pras minhas mimosas. Elas adoram mascar mangas. Comum, coquinha, sabina. Elas nem se importam muito. Só ficam lá mascando e me olhando com aqueles olhares ternos e distantes. Todas elas menos Shanti, o bezerrinho baio que comprei da minha prima. Ele ainda está arredio na nova morada. Lindo e receoso com aquele seu lençol de barbela. Converso com ele mas nada: olha para os lados, suspeitoso... É preciso vagar com a lida. No dilatado do tempo tudo se encaminha. Dia desses ele aprende a mascar mangas, dia desses ele vira mansinho. Vida rural: horizontes alongados!
domingo, 22 de setembro de 2013
Roubei o filho do diabo. Possuída que estava a mascarada. Pariu um bezerrão sonso e se endemoninhou. Quase me pega por três vezes. Ontem fiquei na tentativa. O bichinho não tinha mamado, tadinho. Ela correu comigo.. Pensei: pego o carro, quero ver! E o fiz. Fui de carro, passei o laço no bichinho pelo vão da porta e soltei a corda até a beirada da cerca. A berzebu bufava soltando fumaça pelas ventas. Do lado de lá da cerca fui recolhendo a corda. Peguei o danado no colo pensando: 'tá salvo! Que nada. A diaba varou no meio da paraguaia e veio por cima. Caí logo adiante. Fingi de morto enquanto ela sapateava. Um olho em mim outro na cria. Saí correndo de gatinhas e ela atrás. Um custo até varar do outro lado. Tive de deixar mão. É o destino, pensei. Queria salvar mas o cão não quer. Mais tarde minha vó me disse: "na vida a gente não ganha sempre. Todo mundo tem de perder um pouquinho também". Hoje foi um outro inferno. A bruma da madrugada já previa. Depois da lida, de curar outros dois de curso, fui lá. Com vagar e astúcia me aproximei. Agarrei o pafúncio pela pata e arrastei pro outro lado da cerca. Nada. A tinhosa não estava por perto. Suspeitoso eu o levei pra debaixo da gameleira. Fraquinho mas vivo. A alegria me preencheu. Já era finado na minha ideia. Voltei para o pasto da capoeirinha pra repassar a vista nas atrasadas. No longe eu a avistei. Ela vai procurar o filho, atinei. Que nada! Ela veio foi pra cima de mim. Parecia tourada madrilenha. Eu correndo ao redor das moitas e ela fungando nos meus fundilhos. Que apuro! Dei-lhe com a vara nas fuças por duas vezes e de nada adiantou. Meu fôlego acabando e a bicha mastigando meus calcanhares. Corri, corri... Me veio a salvação: me imiscuí no meio da vacada e mergulhei em rolamentos por debaixo da cerca farpada. Do outro lado ainda corri mais. Escondido por detrás duma sucupira velha tirei tempo pra respirar meu medo. E ela vigiando, de lá... Busquei o carro. Joguei o bichão na carroceria... Agora ele está dormindo na sombra do terreiro. Mamou duas mamadeiradas, guloso.. Apliquei uma terramicina pra garantir... Esse eu acho que escapa. Eu também escapei!!! Rssss!!!!
Triste.
Meu
melhor garrote não resistiu à fratura:
amanheceu
morto.
Quebranto!
Tão
lindo ele era
vestindo
o uniforme do Atlético mineiro.
Malhas
grandes de preto sobre o branco aleitado.
A
barbela era um lençol.
Eu
o encontrei todo inchado, beirando o curral.
Deixei
para amanhã a tarefa
de
arrastá-lo para o buraco dos mortos.
Tenho
de buscar logo uma benzedeira.
Nessas
horas quero desistir disso,
quero
voltar pra pradaria de concreto,
quero
deixar minha cordura
para
os humanos..
Ressaca pouca.
O gaiola do Gonga esbirrado no
embarcadouro
abriu meu domingo.
Lá fui eu no pastinho do fundo buscar
a garrotada caraca vendida.
Sina: eles voltarão para os lados do
Piancó.
Eu os vendi para o meu vizinho e amigo
CG.
Apenas vieram passear aqui pelas
bandas do Lajeado.
Foi fácil carregar o gaiola.
A mansidão terna deles misturada
com minha paciência habitual...
O varjão do Rio Grande lhes servirá de
spa até o abate.
Agora o almoço fumega
comigo sentado no rabo do fogão.
Segue a domingueira,
segue a vida pacata desses lados dos
gerais...
Agora os dedos
desesperados do sol
se agarram ao
horizonte.
Foi mesmo um dia
alongado.
Pulei às 5h. Preparei
a tralha,
coloquei minhas
polainas,
cônscio do manejo
necessário que viria..
Quando abri a porta
percebi que o fog
havia engolido minha casa,
meu sítio,
o mundo todo à minha
volta.
Mesmo assim saí.
Meus olhos viam
apenas
alguns palmos na
frente do nariz.
Segui com o
saveirinho peneirando a fumaça.
Navegando na barriga
do nevoeiro..
Lá fui eu para a
barra do Piancó.
Despertei minhas
mocinhas no malheiro.
Fechei, apartei,
apliquei vacinas, troquei os pastos...
...
29 août
Virgínia não
levantou.
Estava prancheada lá
na cabeceira do pastinho.
Ainda mais machucada
que antes..
Descadeirada: havia
me falado o veterinário.
Coisas de vício e
trepação.
Ou de desavenças
entre elas.
A caracada tem um
tino de brigar à toa.
Consertei-lhe a
posição,
coloquei uma
raçãozinha cheirosa
e taquei-lhe água
boca abaixo.
Sem falar na remedieira..
Deixei-a lá..
Com os olhos no
distante.
Fiquei
desesperançoso.
Amanhã saberei se ela
vai escapar,
ou se já estará
ruminando
nas pastagens azuis
do céu das vacas..
28 août
Cheguei na Vertente
da Moeda
a vacada estava toda
na manguinha,
deitadas com as crias
ao lado, mascando chicletes..
Parei um tempo pra
apreciar a lindeza delas..
Tudo calmo, pensei!
Nada:
uma terneirinha
vermelha começou a entoar berros.
Contei duas vezes e
me preocupei.
Faltava uma cabeça.
Lá fui eu pasto acima
atrás do incerto.
No longe avistei a
Virgínia,
uma vaca amarelona,
deitada.
Me acerquei, rodeei.
A cara dela estava
boa, mas nada de levantar.
Levei sua bezerra pra
perto, nada.
Agora estou na
cidade.
Meu amigo Alberto
(veterinário) almoçando
nós iremos lá tentar
alguma cura.
Perplexidades rurais,
sinas...
Com a cantilena habitual fui juntando a caracada lá na barra do Piancó.Precisava curar uma bicheira adiadano pé do rabo de uma novilha moira.Meu amigo Cambuquira me ajudava na façanha.Ajuntado o gado no meio da pastaria eu reparei.Não sou de benzimentos mas parecia que a bicheira estava sarada.Meu amigo ponderou: melhor levarmos no curral.O olhar acurado é definitivo.E assim foi.Lá no tronco constatamos: nada de bichos.Passei um prata e também um larvicida pour-on, pra garantir.Saímos de lá com a noite engolindo o dia.Lidas e vindas,odes rurais!
Pequei pelo olvido.
Estive pelos lados do Piancó nesse princípio de semana.
Percebi uma novilhota caraca com um sinal vermelho na barbela.
Pensei comigo: É nada!
Apenas algum carrapato caído. Ou arranhão em árvore
espinhosa.
Dei por olhado o plantel e voltei pra cidade.
Nem me lembrei mais disso.
Ao voltar por lá, hoje, constatei o estrago feito.
Uma bicheira feia lhe comia parte da barbela.
Grande mesmo de caber a mão.
Reuni o gado, fechei no curralzinho da vargem
e fui ver de perto, no tronco.
A danada não deixava de atarantada que estava.
Coloquei-lhe a formiga nas ventas, amarrei bem e curei.
Unguento, prata e um larvicida pour-on, para garantir.
É isso: um descuido que seja e o leite entorna.
Soltei a bichinha no meio da vacada
e fui despontando pra acurar a conta enquanto apreciava
a subida delas pra cabeceira, em fila,
emagrecidas por essa seca infinda,
por esses dias vulcânicos.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Triste. Três dias sem passar a vista no gado e encontro o bezerrinho da Mascarada morto. Ela pariu e ele não mamou. Zanzou, zanzou mas não mamou. Eu o encontrei hoje, ainda molinho.. Deve ter morrido pela manhã. Um caracará havia comido seu olho esquerdo. Era pretinho com uma estrela na testa. E a Mascarada chorando berros.. Arrastei pra baixada dos urubus. Que se há de fazer, né?! Só perde quem tem, dizia meu avô..
terça-feira, 14 de maio de 2013
terça-feira, 7 de maio de 2013
Pariram três. Uma báia, uma moira e uma pretinha..
Reuni a manada na beira da capoeirinha
e fui levando vargem abaixo na direção do curral.
Um dos bezerrinhos estava com bicheira grande no umbigo.
Vagar, paciência e o meu canto habitual que a vacada conhece.
Tudo foi se ajeitando. As mansas puxaram ala.
Pouco-a-pouco o gado foi se recolhendo curral adentro.
Apartei e curei... Passando o pente fino e não vi a pretinha.
Que danada. Voltei na beira da capoeirinha
e lá estava ela com olhares de esperteza.
O bezerro ela havia escondido. Não tem jeito: só voltando amanhã..
Abri a porteira, contei.. Tudo certo. Guardei a tralha pensando no almoço.
Outro dia cumprido na barra do Piancó, no meio da caracada mansa,
na solidão alongada da vida rural.
terça-feira, 26 de março de 2013
« Mafuá detrás do banco do saveiro.
Ferramentas misturadas com livros.
Seu carro: sua vida!
Preciso fechar gestalts,
abrir horizontes... »
.
.
« Coloquei sal no cocho da manga.
Passei a vista no gado.
Nenhumas novidades: tudo tranquilo
na barra do Piancó.. »
.
.
« Ventos agustinos penteiam as guarirobas.
A rede balouça meus signos ressaqueados.
E segue o domingo
magro de deleites.. »
«
Back from Piancó.
Agora é banhar-me
e procurar o que não perdi
lá no Cazuza.
Quem sabe uma alongada,
depois,
na festinha do meu primo/sobrinho...
Afinal: today is a kind of
saturday night fever! Rss!!!
»
.
.
«
Estava no meio da manada.
Fechei,
curei bicheirinha
na xana da duquesa,
repassei os olhos na bezerrada..
Agora é voltar.
»
«
Pariram mais duas.
Setembro chegou
comigo na lida,
carregando a seca
nos meus ombros de sísifo.
Curar umbigos,
sortir cochos de proteinados para lambição.
Trocar de pasto.
"Vemboivem,
vemojada, vemduquesa,
vempretinha..
Cocãozin..
ôôôô, braúna..."
Fechar chaves, abrir porteiras.
E o poeirão nas narinas...
»
«
Saudades do Minuano.
Vontade minha era me mudar
pra dentro da geladeira.
Construir meu Iglu
ao lado do sorvete napolitano... Rsss!!!
»
.
«
Remendei as cercas das aguadas.
Arame e pedras
pra proteger minhas mimosas do atoleiro.
Segue a seca sapecando minhas orelhas.
»
.
«
Embarquei 5 com 1.ºs sintomas de anorexia
de volta para a chácara.
Sob meus olhos,
com uma raçãozinha
elas voltarão aos quadros
de Botero..
»
« .
Soprou raivoso o minuano.
Atroaram roucos estampidos
anunciando a ira de Zeus,
o amontoador de nuvens.
E veio, enfim, a generosa chuva
para a exultação dos meus olhos.
Libações haverão de ser levantadas
e tenras prendas imoladas
aos deuses sempiternos.
E que ela molhe a terra
com seus penetrantes dedos.
Até que dela brotem infindáveis lágrimas
em forma de olhos d'água...
.>>
«
Masco chicle: digito.
Puxo o edredom sobre meus joelhos.
Lá fora o sol sapeca as mamoneiras
mas aqui me sinto numa loja de sapatos.
Estou recostado com o ar refrigerado no máximo.
Espero pelo futebol.
Um domingão profícuo.
O bezerrinho com pé engessado
seguiu a mãe pasto adentro.
Bonitinho.
Manquitolando mas persistente..
Amanhã passarei de novo os meus olhos
para assegurar sua longevidade..
E segue a tarde..
Ficarei aqui
até que esse calor amaine um pouco..
»
Chácara
«
Estou puto!!!
Saí um pouco à tarde, hoje,
e me apareceu um gatuno na chácara
que me roubou algumas guarirobas..
Eu mesmo jamais cortei nenhuma.
Elas levaram mais de vinte anos
pra chegar onde estão.
A polícia já identificou o larápio.
Quase o pegamos no flagra.
Espero que ele encontre uma boa boca de pit bull
que lhe mastigue a safadeza e
lhe ensine a não meter a mão no alheio..
»
«
Hoje foi SJRP!
Amanhã será dia de lida.
Matar cupins,
Ir com meu pai no sítio da Cachoeira
e arrematar
passando a vista na caracada
lá na barra do Piancó..
Meu gado vermelho engorda
sob meus olhos marrons..
É pesado mas tem lá sua leveza.
E a filosofia bovina
é tão mais humana
que a dos homens..
Rss!!!
»
«
Foram apenas duas horas de exterminador: das 6h às 8h.
Os cupins de hoje estão urbanizados: as casas deles agora
têm vários andares.
Alavanca, veneno de bomba e vedação.
Mas a dadivosa chuva me pegou em trânsito.
Amanhã eu continuo..
Com uma chuvinha boa dessas voltarei para as atividades de alcova.
O som hipnótico das gotas caídas no telhado
já pesam minhas pálpebras.
Olho de soslaio pra rede da varanda...
»
Chácara
«
A moto-serra mastigou a cerca viva.
O sansão do campo e sua força hercúlea caíram
levantando uma sonora poeira.
Tive de tirar...
Pena: estava afrontando a rede elétrica lá da chácara..
Amanhã metrarei a madeira para o fogão à lenha.
Agora é tempo de um banho gelado
para resfriar o sol no meu lombo. ...
»
Vacinação na Cachoeira de Cima
«
Hoje foi dia de vacinação na Cachoeira de Cima.
A nelorada de meu pai mais parecia uma onda branca,
um fluxo bovino..
Foi duro mas a curralama nova
e a peonada seguraram o tranco.
Eu nos estojos os manejava como pistolas fossem:
um verdeiro Doc Holliday.. Rss!!
Vermífugos e vacinas...
O velho Toni no comando e no pente.
De tão contente na lida nem se lembrava
dos seus 83 nas costas..
As mangas da chuva nos rodeando
pelas baixadas..
Vida rural: porteiras,
passagens..
»
«
480, 480, 490, e cinco..
"quinhenntus", 500, 500, vou vender...
510, 510... Dou-lhe uma...,
dou-lhe duas... Toc!!!
Comprou e comprou bem!
Parabéns e obrigado!!
Pena: o último lance não foi meu.
Outro levou o lote.
Hoje estava uma carestia só
lá no Cruzeta Leilões.
Alguns lances e nada comprado.
É assim mesmo.
Há dias para vender, outros para comprar.
Estou de volta, cedo.
Irei amainar minhas idéias
com a mais gelada lá do Cazuza..
»
«
Soltei minhas meninas no vedado.
O vento derrubou um angico
na paraguaia do mato.
Perigava que elas saíssem para a rodovia.
Bonito vê-las mascando
o aveludado capim novo.
Pensei:
essa deve ser a verdadeira felicidade.
Comer, ruminar, reproduzir...
Outro dia nos verdes remansos
da barra do Piancó...
»
«
A Baronesa estava com um estrepe na pata.
Arisca nem queria vir pro curral
pra me deixar ver melhor.
Pensei:
eu uso de astúcia que ela vem..
Peguei um tico de ração cheirosa
e fui descendo a vargem.
Lá estava ela: suspeitosa..
Chamei: Baronesa, vem, vem...
E ela veio com
um vagar manquitolado,
farejando a ração.
Coloquei no chão e ela foi abocanhando..
Deixei.
Rodeei e fui olhar o inchaço.
Falei:
vambora menina!
Vem, vem..
E ela veio.
Lerda.
Vez por outra me olhava
como pra saber se eu ainda estava lá.
Mas no fundo ela pensava:
tem mais lá adiante.
Fechei no tronco,
curei.
Disse pra ela:
Baronesa vem..
Forni o cocho com um pouco mais da granulada.
Fui embora.
Ela ficou me olhando sumir lá na curva
enquanto mascava o tempo.
Olhos mansos,
majestosa..
»
A Baronesa estava com um estrepe na pata.
Arisca nem queria vir pro curral
pra me deixar ver melhor.
Pensei:
eu uso de astúcia que ela vem..
Peguei um tico de ração cheirosa
e fui descendo a vargem.
Lá estava ela: suspeitosa..
Chamei: Baronesa, vem, vem...
E ela veio com
um vagar manquitolado,
farejando a ração.
Coloquei no chão e ela foi abocanhando..
Deixei.
Rodeei e fui olhar o inchaço.
Falei:
vambora menina!
Vem, vem..
E ela veio.
Lerda.
Vez por outra me olhava
como pra saber se eu ainda estava lá.
Mas no fundo ela pensava:
tem mais lá adiante.
Fechei no tronco,
curei.
Disse pra ela:
Baronesa vem..
Forni o cocho com um pouco mais da granulada.
Fui embora.
Ela ficou me olhando sumir lá na curva
enquanto mascava o tempo.
Olhos mansos,
majestosa..
»
«
Abriu.
Estava um barradão bonito no começo da manhã.
Enquanto os róseos dedos da madrugadora aurora surgiam
puxados pelos berros da caracada,
as nuvens foram se dissipando
até clarear por completo.
O gado me rodeou farejando o sal
que eu colocava no cocho.
Olhei: nenhumas novidades.
Faltaram as duas mojadas.
Levantei a vista e as vi lá na cabeceira.
Lentas, sossegadas. Fui lá.
A parição é breve, pensei.
Agora estou em casa.
Soprando o café preto
pra mastigar o pão de queijo.
Outra semana começa.
»
«
É chegado o tempo das amoras sanguíneas.
Quase tão doces quanto a garrafa de grapette
da minha infância.
Passei tempo na sombra da amoreira
puxando galhos e degustando.
Quando caia uma frutinha no chão eu pensava:
a deusa ceres está com inveja de mim e também quer.
Mais tarde vou pegar um lençol velho.
Balouçarei a árvore e farei um estoque
para o mais delicioso dos sucos.
Guardarei até algumas pedrinhas de gelo rubro
para adoçar a vodca finlandesa..
»
«
A Pretinha teta de cabaça pariu um bezerrão.
Sonso, mole..
deu pra não achar os peitos da mãe.
Lá fui eu apeitar.
Boca abaixo,
mamadeira
e o danado continuou lerdo
nesses dois dias passados.
Hoje ele resolveu: mamou,
soltou aquela bostinha amarela
característica
e acompanhou a mãe.
Soltei os dois
e lá foram eles pasto acima.
Ele em zigue-zagues
e ela ciosa
como uma mãe levando o filho na escola,
no primeiro dia de aula.
Amanhã será outro dia.
Volto lá pra passar a vista na destoca
e aproveito pra ver se o danado mamou sozinho.
Coisas rurais,
horizontes verdes...
»
«
Pulei cedo e fui passar a vista na caracada.
Saudoso eu estava do manejo,
da berração.
Contornei a capoeirinha
e fui chamando: Vem moirinha, vem cigana,
vem campeão.. Vem!
Reuni e fui tocando.
De começo já percebi duas paridas: um bezerrão malhado, uma terneirinha roxa.
E foi.
Fechei, apartei, curei bicho no umbigo,
passei remédio pra caganeira...
Minhas meninas me rodeavam: Olhares mansos,
confiados, majestosos.
Dei mais um repasse e pensei: sem mais novidades.
E elas foram passando uma a uma pela porteira.
Conta certa, falei pro meu umbigo.
Sol alto eu voltei pra terra dos bancos..
Agora é seguir o rastro oloroso do almoço.
É bom estar de volta
aos meus domínios,
à barra do Piancó,
à vidinha besta desse canto
de Minas.
»
Saudoso eu estava do manejo,
da berração.
Contornei a capoeirinha
e fui chamando: Vem moirinha, vem cigana,
vem campeão.. Vem!
Reuni e fui tocando.
De começo já percebi duas paridas: um bezerrão malhado, uma terneirinha roxa.
E foi.
Fechei, apartei, curei bicho no umbigo,
passei remédio pra caganeira...
Minhas meninas me rodeavam: Olhares mansos,
confiados, majestosos.
Dei mais um repasse e pensei: sem mais novidades.
E elas foram passando uma a uma pela porteira.
Conta certa, falei pro meu umbigo.
Sol alto eu voltei pra terra dos bancos..
Agora é seguir o rastro oloroso do almoço.
É bom estar de volta
aos meus domínios,
à barra do Piancó,
à vidinha besta desse canto
de Minas.
»
Cachoeira de Cima
«
Pois é amigo Keys..
Quando o peixe chegou na mesa
também junto chegou o meu pai.
Havia gado alongado no corredor.
Mal mastiguei e rumamos lá pras bandas da Cachoeira de Cima.
Foi difícil recolher a nelorada porteira adentro.
A paraguaia havia rompido.
Coisas de estouro.
Tiro de caçador ou miado de onça...
Quem há de saber.
Amanhã ele irá para reparos
e conferência.
Eu?
Vou tomar um banho, agora que cheguei,
e sair pra escutar o burburinho das mariposas
de asas prateadas.
Vamos???
»
«
Não adiantou o carinho.
Nem o capinzinho verde,
nem a sombra..
Nem mesmo os remédios
aplicados ao tempo e a hora.
A Bananinha morreu!
Depois das chifradas da Cafuza
que lesionaram seu dorso
ela se perrengou mais
e mais..
Acabou por perder
aquele brilho manso dos olhos.
Se foi..
Lá pro céu das vacas
onde as pradarias são sempre verdes
de forrageiras macias.
Decerto encontrará outros mugidos alegres por lá..
Deixou uma terneirinha miúda
bradando berros.
Tão nova que ainda nem sei
como alimentá-la.
Que se há de fazer?!
O alento é a lembrança de meu avô
que sempre dizia:
meu filho,
só perde quem tem! ..
»
«
Tem duas semanas que matei a Cafuza.
Mais três quilos ela pesava vinte arrobas.
Impetuosa, enfurecida,
soltando fumaça pelas ventas,
ela demorou a morrer.
Trabalho que deu para o açougueiro:
vinte ou mais machadadas.
Fiquei um pouco entristecido,
mas foi preciso.
A malvada matou a Bananinha
e teimava em machucar as outras vacas
com seus cornos espanholados.
Meus amigos cozinheiros
não souberam me dizer como aproveitar o vitelo,
pena.
A cachorrada e a gataria do terreiro
agradeceram com sonoros sorrisos mialatidos.
E assim segue a minha vida rural
alheia aos meus anseios de menino urbano.
É viver e pronto:
as metrópoles também têm suas maldades..
E maldades também têm lá
sua serventia..
»
«
A garoa nos pegou descendo a vargem.
Meu pai e eu.
Vem, vem,
ôooo, vem,
ohôoo, vem...
E a vacada seguindo adiante,
reunida.
Fecha!
Vem moirinha,
vem campeão, vem duquesa...
E foram entrando na manga do curral.
Seduzidas pelo costume
e pelo cheiro oloroso da polpa cítrica
que eu havia colocado no cocho.
Enxuguei meus óculos
enquanto meu pai passava a vista na bezerrada.
Quase nenhumas novidades.
Remedinho pra curso,
vitamina prum mirrado
e só.
Foi mesmo um risco n'água
e já voltávamos lá das bandas do Piancó.
Somos bons na lida.
Juntos melhoramos
a perfeição de entender o gado,
o tempo
e a vida..
Odes rurais,
significâncias...
»
«
Cuido de vacas.
O destino quis assim.
Tem vacas impetuosas, arredias,
malvadas..
E outras dóceis, ternas,
mansas no mugido e no olhar.
Fui passar a vista na caracada esta tarde.
De súbito já percebi uma parida.
Acerquei-me com cautela
e a danada bufava,
arrancava terra com os cascos
protegendo a cria.
Olhei os peitos: dois mamados.
Um bezerrão vermelho, sadio.
Pensei: segunda-feira fecho tudo
e curo o umbigo..
Desci beirando a vargem
e percebi uma negrinha se distanciando da manada.
Fui negaceando, seguindo..
Estacou do lado de uma moita alta.
Aproximei-me.
Lá estava, uma terneirinha preta.
Magrinha, coitada.
E nada de mamar.
Os peitões da vaca estavam em riste,
cheios.
Tetões de cabaça.
Mas a ela é mansa então eu levantei a bezerrinha
e fui tocando as duas para o curral.
Levou hora para chegarmos lá.
Uma zambetando,
a outra protegendo.
Fechei no tronco e fui apeitar.
Aos poucos e esquivando dos coices
consegui que a bichinha pegasse um peito.
Que faminta tadinha..
E foi indo ela pegou gosto,
pegou outro...
Foi se ajeitando e encheu a pança.
Soltei pra manguinha.
Saí de lá noite feita.
E assim é:
a vida se renovando debaixo dos meus olhos.
Eu cuidando das vacas
e elas me ensinando filosofias..
Caminhos e vírgulas:
encantamentos.
»
O destino quis assim.
Tem vacas impetuosas, arredias,
malvadas..
E outras dóceis, ternas,
mansas no mugido e no olhar.
Fui passar a vista na caracada esta tarde.
De súbito já percebi uma parida.
Acerquei-me com cautela
e a danada bufava,
arrancava terra com os cascos
protegendo a cria.
Olhei os peitos: dois mamados.
Um bezerrão vermelho, sadio.
Pensei: segunda-feira fecho tudo
e curo o umbigo..
Desci beirando a vargem
e percebi uma negrinha se distanciando da manada.
Fui negaceando, seguindo..
Estacou do lado de uma moita alta.
Aproximei-me.
Lá estava, uma terneirinha preta.
Magrinha, coitada.
E nada de mamar.
Os peitões da vaca estavam em riste,
cheios.
Tetões de cabaça.
Mas a ela é mansa então eu levantei a bezerrinha
e fui tocando as duas para o curral.
Levou hora para chegarmos lá.
Uma zambetando,
a outra protegendo.
Fechei no tronco e fui apeitar.
Aos poucos e esquivando dos coices
consegui que a bichinha pegasse um peito.
Que faminta tadinha..
E foi indo ela pegou gosto,
pegou outro...
Foi se ajeitando e encheu a pança.
Soltei pra manguinha.
Saí de lá noite feita.
E assim é:
a vida se renovando debaixo dos meus olhos.
Eu cuidando das vacas
e elas me ensinando filosofias..
Caminhos e vírgulas:
encantamentos.
«
Quando o sol esfriou um pouco
fui ver minhas mocinhas.
E havia mesmo novidades:
a Roxinha pariu um bezerrão vermelho.
Nem um dia de vida
já levantou me dando coices
e berrando desafinado.
A mãe veio.
Levei os dois pro curral
e curei o umbigo.
Lá no longe o sol ia se pondo.
Rajas alaranjadas
parecidas com cabeleiras de ruivas nórdicas.
E voltei com uma sede daquelas.
Bebi água do pote: friinha..
Amanhã serão outras andanças,
outros caminhos..
»
«
Pulei cedo.
Menos de cinco, acho.
Fui correr a vista na baixada do mangue.
Apertei minhas polainas
e entoei meu canto habitual de juntar o gado.
E se seguiu o tropel descendo a vargem.
A caracada estava saudosa do sal branco.
Me rodearam
enquanto eu fornia o cocho.
Contei, faltavam algumas..
Lá fui eu na beirada da capoeirinha
juntar as desgarradas.
Logo vi uma pretinha escoiceado o ar
e bramindo as orelhas..
Pensei: bicheira.
E era.
Fechei no tronco,
curei...
Agradei com uma raçãozinha cheirosa.
Depois peguei a estrada de volta.
Lábios secos os meus de vontade
da água esquecida de levar.
Agora é pensar na pacatez do domingo
deitado lá na rede da varanda.
Sentir o ventinho fresco do guarirobal
elucubrando coisas com o note no colo.
Quem sabe tem futebol no fim da tarde?!
Eita vidinha besta
essa minha..
Rsss!!!
»
Menos de cinco, acho.
Fui correr a vista na baixada do mangue.
Apertei minhas polainas
e entoei meu canto habitual de juntar o gado.
E se seguiu o tropel descendo a vargem.
A caracada estava saudosa do sal branco.
Me rodearam
enquanto eu fornia o cocho.
Contei, faltavam algumas..
Lá fui eu na beirada da capoeirinha
juntar as desgarradas.
Logo vi uma pretinha escoiceado o ar
e bramindo as orelhas..
Pensei: bicheira.
E era.
Fechei no tronco,
curei...
Agradei com uma raçãozinha cheirosa.
Depois peguei a estrada de volta.
Lábios secos os meus de vontade
da água esquecida de levar.
Agora é pensar na pacatez do domingo
deitado lá na rede da varanda.
Sentir o ventinho fresco do guarirobal
elucubrando coisas com o note no colo.
Quem sabe tem futebol no fim da tarde?!
Eita vidinha besta
essa minha..
Rsss!!!
«
O vento da tarde me penteava os cabelos
Eu seguia pelas veredas sinuosas da vargem do Piancó.
Monjolos, juás e malícias me afastavam
do pensar no gado.
Pragas invencíveis, sobreviventes às enxadas e venenos..
O suor escorria inundando todos os meus olhos.
O sol de fogo cozinhando meus miolos.
Divagava pelos anos passados sob meus pés:
Vacas e novilhas nascidas, vendidas;
Bezerrada desmamada, marcada, descornada...
Eu olhava minhas botinas velhas e seguia adiante.
Mais um pouco pra antiga sede.
Uma pinguela de aroeira caída sobre
O córrego, umas braças mais de quintal.
Virei menino nesse sendeiro.
Fui buscar uma foice emprestada..
Emprestei também pedaços de
Passado. E nuvens de lembranças das
Curvas da vida.
«
O vento da tarde me penteava os cabelos
Monjolos, juás e malícias me afastavam
do pensar no gado.
Pragas invencíveis, sobreviventes às enxadas e venenos..
O suor escorria inundando todos os meus olhos.
O sol de fogo cozinhando meus miolos.
Divagava pelos anos passados sob meus pés:
Vacas e novilhas nascidas, vendidas;
Bezerrada desmamada, marcada, descornada...
Eu olhava minhas botinas velhas e seguia adiante.
Mais um pouco pra antiga sede.
Uma pinguela de aroeira caída sobre
O córrego, umas braças mais de quintal.
Virei menino nesse sendeiro.
Fui buscar uma foice emprestada..
Emprestei também pedaços de
Passado. E nuvens de lembranças das
Curvas da vida.
«
«
«
Minha botina toda molhada com o orvalho
seguia eu vargem acima:
Vem, vem;
vem catoca, vem campeão, vem duquesa...
O sol, cauteloso, começava a clarear a campina
com seus cílios de fogo..
Aos poucos o gado foi saindo do malheiro
e descendo lá pro curralzinho..
Seguiam o alarido do meu chamado
e a berração da vacada desencontrada das crias.
Uma parida, uma com a pata machucada,
outra com baba nas ventas..
Fechei,
apeitei,
curei a pata com astúcia e unguento..
A babação atinei de ser cobra.
Corri na cidade buscar o antiofídico.
Meu amigo Alberto me disse leva
mas passo lá e dou uma olhada antes..
Ele olhou.
Não era nada.
Só brabeza da tinhosa nos fazendo subir nas cercas..
Soltei a danada já era mais de onze.
E lá foi ela cheia de urgências
berrando vereda afora atrás da manada.
Outro dia no meio da caracada,
outro dia engordando o gado com meus olhos.
Vida rural:
horizontes alongados...
»
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