quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A lida tem seu próprio tempo. Nem adianta tentar antecipar que o imprevisível é o que se sucederá. Por vezes preparo toda a tralha achando que acontecerá coisas e coisas e nada passa. Chego lá na vargem do Piancó e tudo está nas normalidades. Por outras vou só correr a vista na vacada, como hoje, e me deparo com nefandas novidades. Alguma bicheira pra curar. Colocar brinco de cobre em novilha verruguenta. Unha de vaca pra cortar. Fui cedinho pra voltar num átimo e saí do curral com meu estômago pedindo almoço. Mas o bom dessa vida é mesmo isso: o inesperado, o não saber das coisas. De nada adianta correr. Melhor mesmo é olhar tudo com vagar, com olhos lerdos. É mesmo preciso para poder entender o gado. E também a vida. Agora é fazer o prato e repassar o esquecido pelo senso: amanhã ainda será assim.

domingo, 17 de novembro de 2013

O Pacato ficou roliço! 
Depois de alguns dias no vedadinho 
saboreando o delicioso capinzinho 'derruba velha' 
ele se anafou. 
Quando chego ele está lá. 
Debaixo dalguma sombra, mascando. 
Ou lambendo as ancas duma das minhas mimosas. 
Nem escapole mais com a proximidade dos meus passos. 
Virou manso. 
Já ficou dono da pastaria. 
Cabeça alta eu o vejo sempre
conferindo a vacada nos limites da Vertentinha.
Que vidinha boa a dele: pastar e cafungar cios.
Vida bovina: 'descomplicâncias'...
Ela me disse: vaca "aqui em casa é somente a pele esticada no chão da sala".
Eu retruquei que é assim mesmo, 
que vivemos só um pouquinho. 
Mas antes do açougue, 
ou do cortume, 
ela bem que deve ter pastado nalguma baixada, 
nalguma vargem maciosa. 
Deve ter bebido água limpinha 
dalgum ribeirão 
e deve ter tido o sossego 
dalguma sombra frondosa no meio da pastaria. 
Seus olhos de entardecer nunca vão junto. 
Eles são hereditários, eternos. 
E eu os vejo todos os dias.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Cheguei na Vertente da Moeda a vacada estava toda na manguinha, deitadas com as crias ao lado, mascando chicletes.. Parei um tempo pra apreciar a lindeza delas.. Tudo calmo, pensei! Nada: uma terneirinha vermelha começou a entoar berros. Contei duas vezes e me preocupei. Faltava uma cabeça. Lá fui eu pasto acima atrás do incerto. No longe avistei a Virgínia, uma vaca amarelona, deitada. Me acerquei, rodeei. A cara dela estava boa mas nada de levantar. Levei a bezerra pra perto, nada. Agora estou na cidade. Meu amigo Alberto (veterinário) almoçando nós iremos lá tentar alguma cura. Perplexidades rurais, sinas...

Pequei pelo olvido. Estive pelos lados do Piancó nesse princípio de semana. Percebi uma novilhota caraca com um sinal vermelho na barbela. Pensei comigo: É nada! Apenas algum carrapato caído. Ou arranhão em árvore espinhosa. Dei por olhado o plantel e voltei pra cidade. Nem me lembrei mais disso. Ao voltar por lá, hoje, constatei o estrago feito. Uma bicheira feia lhe comia parte da barbela. Grande mesmo de caber a mão. Reuni o gado, fechei no curralzinho da vargem e fui ver de perto, no tronco. A danada não deixava de atarantada que estava. Coloquei-lhe a formiga nas ventas, amarrei bem e curei.Unguento, prata e um larvicida pour-on, para garantir.É isso: um descuido que seja e o leite entorna.Soltei a bichinha no meio da vacada e fui despontando pra acurar a conta enquanto apreciava a subida delas pra cabeceira, em fila,emagrecidas por essa seca infinda,por esses dias vulcânicos.

Nem bem começo a encher o balaio e a vacada vem correndo me rodear. Assim é todos os dias: vou distribuindo balaiadas e mais balaiadas pras minhas mimosas. Elas adoram mascar mangas. Comum, coquinha, sabina. Elas nem se importam muito. Só ficam lá mascando e me olhando com aqueles olhares ternos e distantes. Todas elas menos Shanti, o bezerrinho baio que comprei da minha prima. Ele ainda está arredio na nova morada. Lindo e receoso com aquele seu lençol de barbela. Converso com ele mas nada: olha para os lados, suspeitoso... É preciso vagar com a lida. No dilatado do tempo tudo se encaminha. Dia desses ele aprende a mascar mangas, dia desses ele vira mansinho. Vida rural: horizontes alongados!

domingo, 22 de setembro de 2013

Roubei o filho do diabo. Possuída que estava a mascarada. Pariu um bezerrão sonso e se endemoninhou. Quase me pega por três vezes. Ontem fiquei na tentativa. O bichinho não tinha mamado, tadinho. Ela correu comigo.. Pensei: pego o carro, quero ver! E o fiz. Fui de carro, passei o laço no bichinho pelo vão da porta e soltei a corda até a beirada da cerca. A berzebu bufava soltando fumaça pelas ventas. Do lado de lá da cerca fui recolhendo a corda. Peguei o danado no colo pensando: 'tá salvo! Que nada. A diaba varou no meio da paraguaia e veio por cima. Caí logo adiante. Fingi de morto enquanto ela sapateava. Um olho em mim outro na cria. Saí correndo de gatinhas e ela atrás. Um custo até varar do outro lado. Tive de deixar mão. É o destino, pensei. Queria salvar mas o cão não quer. Mais tarde minha vó me disse: "na vida a gente não ganha sempre. Todo mundo tem de perder um pouquinho também". Hoje foi um outro inferno. A bruma da madrugada já previa. Depois da lida, de curar outros dois de curso, fui lá. Com vagar e astúcia me aproximei. Agarrei o pafúncio pela pata e arrastei pro outro lado da cerca. Nada. A tinhosa não estava por perto. Suspeitoso eu o levei pra debaixo da gameleira. Fraquinho mas vivo. A alegria me preencheu. Já era finado na minha ideia. Voltei para o pasto da capoeirinha pra repassar a vista nas atrasadas. No longe eu a avistei. Ela vai procurar o filho, atinei. Que nada! Ela veio foi pra cima de mim. Parecia tourada madrilenha. Eu correndo ao redor das moitas e ela fungando nos meus fundilhos. Que apuro! Dei-lhe com a vara nas fuças por duas vezes e de nada adiantou. Meu fôlego acabando e a bicha mastigando meus calcanhares. Corri, corri... Me veio a salvação: me imiscuí no meio da vacada e mergulhei em rolamentos por debaixo da cerca farpada. Do outro lado ainda corri mais. Escondido por detrás duma sucupira velha tirei tempo pra respirar meu medo. E ela vigiando, de lá... Busquei o carro. Joguei o bichão na carroceria... Agora ele está dormindo na sombra do terreiro. Mamou duas mamadeiradas, guloso.. Apliquei uma terramicina pra garantir... Esse eu acho que escapa. Eu também escapei!!! Rssss!!!!

Triste.
Meu melhor garrote não resistiu à fratura:
amanheceu morto.
Quebranto!
Tão lindo ele era
vestindo o uniforme do Atlético mineiro.
Malhas grandes de preto sobre o branco aleitado.
A barbela era um lençol.
Eu o encontrei todo inchado, beirando o curral.
Deixei para amanhã a tarefa
de arrastá-lo para o buraco dos mortos.
Tenho de buscar logo uma benzedeira.
Nessas horas quero desistir disso,
quero voltar pra pradaria de concreto,
quero deixar minha cordura
para os humanos..

 Ressaca pouca.
O gaiola do Gonga esbirrado no embarcadouro
abriu meu domingo.
Lá fui eu no pastinho do fundo buscar
a garrotada caraca vendida.
Sina: eles voltarão para os lados do Piancó.
Eu os vendi para o meu vizinho e amigo CG.
Apenas vieram passear aqui pelas bandas do Lajeado.
Foi fácil carregar o gaiola.
A mansidão terna deles misturada
com minha paciência habitual...
O varjão do Rio Grande lhes servirá de spa até o abate.
Agora o almoço fumega
comigo sentado no rabo do fogão.
Segue a domingueira,
segue a vida pacata desses lados dos gerais...

Agora os dedos desesperados do sol
se agarram ao horizonte.
Foi mesmo um dia alongado.
Pulei às 5h. Preparei a tralha,
coloquei minhas polainas,
cônscio do manejo necessário que viria..
Quando abri a porta
percebi que o fog havia engolido minha casa,
meu sítio,
o mundo todo à minha volta.
Mesmo assim saí.
Meus olhos viam apenas
alguns palmos na frente do nariz.
Segui com o saveirinho peneirando a fumaça.
Navegando na barriga do nevoeiro..
Lá fui eu para a barra do Piancó.
Despertei minhas mocinhas no malheiro.
Fechei, apartei, apliquei vacinas, troquei os pastos...
...


29 août


Virgínia não levantou.
Estava prancheada lá na cabeceira do pastinho.
Ainda mais machucada que antes..
Descadeirada: havia me falado o veterinário.
Coisas de vício e trepação.
Ou de desavenças entre elas.
A caracada tem um tino de brigar à toa.
Consertei-lhe a posição,
coloquei uma raçãozinha cheirosa
e taquei-lhe água boca abaixo.
Sem falar na remedieira..
Deixei-a lá..
Com os olhos no distante.
Fiquei desesperançoso.
Amanhã saberei se ela vai escapar,
ou se já estará ruminando
nas pastagens azuis do céu das vacas..  

28 août


Cheguei na Vertente da Moeda
a vacada estava toda na manguinha,
deitadas com as crias ao lado, mascando chicletes..
Parei um tempo pra apreciar a lindeza delas..
Tudo calmo, pensei! Nada:
uma terneirinha vermelha começou a entoar berros.
Contei duas vezes e me preocupei.
Faltava uma cabeça.
Lá fui eu pasto acima atrás do incerto.
No longe avistei a Virgínia,
uma vaca amarelona,
deitada.
Me acerquei, rodeei.
A cara dela estava boa, mas nada de levantar.
Levei sua bezerra pra perto, nada.
Agora estou na cidade.
Meu amigo Alberto (veterinário) almoçando
nós iremos lá tentar alguma cura.
Perplexidades rurais,
sinas...

Com a cantilena habitual fui juntando a caracada lá na barra do Piancó.
Precisava curar uma bicheira adiada
no pé do rabo de uma novilha moira.
Meu amigo Cambuquira me ajudava na façanha.
Ajuntado o gado no meio da pastaria eu reparei.
Não sou de benzimentos mas parecia que a bicheira estava sarada.
Meu amigo ponderou: melhor levarmos no curral.
O olhar acurado é definitivo.
E assim foi.
Lá no tronco constatamos: nada de bichos.
Passei um prata e também um larvicida pour-on, pra garantir.
Saímos de lá com a noite engolindo o dia.
Lidas e vindas,
odes rurais!


Pequei pelo olvido.
Estive pelos lados do Piancó nesse princípio de semana.
Percebi uma novilhota caraca  com um sinal vermelho na barbela.
Pensei comigo: É nada!
Apenas algum carrapato caído. Ou arranhão em árvore espinhosa.
Dei por olhado o plantel e voltei pra cidade.  
Nem me lembrei mais disso.
Ao voltar por lá, hoje, constatei o estrago feito.
Uma bicheira feia lhe comia parte da barbela.
Grande mesmo de caber a mão.
Reuni o gado, fechei no curralzinho da vargem
e fui ver de perto, no tronco.
A danada não deixava de atarantada que estava.
Coloquei-lhe a formiga nas ventas, amarrei bem e curei.
Unguento, prata e um larvicida pour-on, para garantir.
É isso: um descuido que seja e o leite entorna.
Soltei a bichinha no meio da vacada
e fui despontando pra acurar a conta enquanto apreciava
a subida delas pra cabeceira, em fila,
emagrecidas por essa seca infinda,

por esses dias vulcânicos.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Triste. Três dias sem passar a vista no gado e encontro o bezerrinho da Mascarada morto. Ela pariu e ele não mamou. Zanzou, zanzou mas não mamou. Eu o encontrei hoje, ainda molinho.. Deve ter morrido pela manhã. Um caracará havia comido seu olho esquerdo. Era pretinho com uma estrela na testa. E a Mascarada chorando berros.. Arrastei pra baixada dos urubus. Que se há de fazer, né?! Só perde quem tem, dizia meu avô.. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

<<Filomena não pariu. Estava deitada debaixo do pé de barú. Sonsa mascando chicletes. Úbere em riste, dilatado. Piancó...>>

terça-feira, 7 de maio de 2013

Pariram três. Uma báia, uma moira e uma pretinha.. 

Reuni a manada na beira da capoeirinha 

e fui levando vargem abaixo na direção do curral. 

Um dos bezerrinhos estava com bicheira grande no umbigo. 

Vagar, paciência e o meu canto habitual que a vacada conhece. 

Tudo foi se ajeitando. As mansas puxaram ala. 

Pouco-a-pouco o gado foi se recolhendo curral adentro. 

Apartei e curei... Passando o pente fino e não vi a pretinha. 

Que danada. Voltei na beira da capoeirinha 

e lá estava ela com olhares de esperteza. 

O bezerro ela havia escondido. Não tem jeito: só voltando amanhã.. 

Abri a porteira, contei.. Tudo certo. Guardei a tralha pensando no almoço. 

Outro dia cumprido na barra do Piancó, no meio da caracada mansa, 

na solidão alongada da vida rural.

terça-feira, 26 de março de 2013


« Mafuá detrás do banco do saveiro. 

Ferramentas misturadas com livros. 

Seu carro: sua vida! 

Preciso fechar gestalts, 

abrir horizontes... »
.



.
« Coloquei sal no cocho da manga. 

Passei a vista no gado. 

Nenhumas novidades: tudo tranquilo 

na barra do Piancó.. »
.



.
« Ventos agustinos penteiam as guarirobas. 

A rede balouça meus signos ressaqueados. 

E segue o domingo 

magro de deleites.. »


« 


Back from Piancó. 

Agora é banhar-me 

e procurar o que não perdi 

lá no Cazuza. 

Quem sabe uma alongada, 

depois, 

na festinha do meu primo/sobrinho... 

Afinal: today is a kind of 

saturday night fever! Rss!!! 


»
.

.


« 

Estava no meio da manada. 

Fechei, 

curei bicheirinha 

na xana da duquesa, 

repassei os olhos na bezerrada.. 

Agora é voltar. 

»


« 


Capturando tanajuras para pescar peixes voadores.. 


»


« 


O sol se levantou sob meus pés. 


Seus ráios se misturaram à vermelhidão da terra 


e ao perfume amarelado dos ipês. 


Amanheceu o Piancó comigo no meio da vacaria. 


»


« 


Pariram mais duas. 

Setembro chegou 

comigo na lida, 

carregando a seca 

nos meus ombros de sísifo. 

Curar umbigos, 

sortir cochos de proteinados para lambição. 

Trocar de pasto. 

"Vemboivem, 

vemojada, vemduquesa, 

vempretinha.. 

Cocãozin.. 

ôôôô, braúna..." 

Fechar chaves, abrir porteiras. 

E o poeirão nas narinas... 


»


« 

Me sinto mais livre 

no lombo da bainha, 

juntando o gado 

lá nas macegas do Piancó.. 

»

.


« Respiro o ar seco de setembro.
Estou voltando...
Pariram mais duas hoje.
Abro um sorriso 

pra confrontar o tempo.
Será assim
até São Pedro chorar.. 

»


« 


Saudades do Minuano. 

Vontade minha era me mudar 

pra dentro da geladeira. 

Construir meu Iglu 

ao lado do sorvete napolitano... Rsss!!!


 »

.


«


 Remendei as cercas das aguadas. 

Arame e pedras 

pra proteger minhas mimosas do atoleiro. 

Segue a seca sapecando minhas orelhas. 


»

.


«


 Embarquei 5 com 1.ºs sintomas de anorexia 

de volta para a chácara. 

Sob meus olhos, 

com uma raçãozinha 

elas voltarão aos quadros 

de Botero..


 »


« 


Ventos agustinos 

invadem setembro. 

Os incautos 

sofremos com esses 

tempos impredictos. 

Me sinto Farafra. 

Sol a pino. 

Minha sombra apenas. ... 


»


« 


A seca espalha cizânia 

nos meus domínios. 

São Pedro dorme: 

Já era tempo de mangas maduras 

e amoras sangüíneas. 

Meus lábios seguem trincados. 


»


« 


O tempo anda apoucado no meu cabedal. 

Essa seca setembrina vai se alongando, 

espichada num sem fim. 

Na lida agigantada do dia por dia 

os meus poros lacrimejam entristecidos. 

Minhas mimosas disputam 

sombras na macega cinza: querem chuvas! 

Eu também!!! 


»


« .


Soprou raivoso o minuano.
Atroaram roucos estampidos
anunciando a ira de Zeus,
o amontoador de nuvens.
E veio, enfim, a generosa chuva 

para a exultação dos meus olhos.
Libações haverão de ser levantadas 

e tenras prendas imoladas 

aos deuses sempiternos.
E que ela molhe a terra 

com seus penetrantes dedos.
Até que dela brotem infindáveis lágrimas 

em forma de olhos d'água...




.>>

« 


Masco chicle: digito. 

Puxo o edredom sobre meus joelhos. 

Lá fora o sol sapeca as mamoneiras 

mas aqui me sinto numa loja de sapatos. 

Estou recostado com o ar refrigerado no máximo. 

Espero pelo futebol. 

Um domingão profícuo. 

O bezerrinho com pé engessado 

seguiu a mãe pasto adentro. 

Bonitinho. 

Manquitolando mas persistente.. 

Amanhã passarei de novo os meus olhos 

para assegurar sua longevidade.. 

E segue a tarde.. 

Ficarei aqui 

até que esse calor amaine um pouco.. 


»


« 


Não acordarei. 

Na barra do Piancó 

o sol nascerá adiantado. 

Acertei meu relógio de verão 

pra não dormir. 

Ao menos nessa noite tépida.. 

Irei ver o bezerro da pata engessada. 

E passar meus olhos marrons na pastaria.. 


»


« 


Timidamente 

alguns perdigotos de Zeus 

caíram barulhentos no zinco. 

Olhei o revolto dos céus 

e firmei que vinha deveras um temporal. 

Estampidos sonoros se seguiram 

diante dos meus olhos. 

Escutei o tropel de minhas vaquinhas 

se recolhendo no barracão. 

Elas estavam sorrindo. 

Eu também!!! 


»



« 

O telefone me contou 

de luzes de um carro 

nos meus domínios. 

Apartei meu parabellum, 

acelerei o saveiro 

e fui ver o incidente. 

Carniceiros levando minhas mocinhas, 

pensei. 

Nada: 

tiradores do mel da lua cheia. 

Menos mal! 

»

Chácara


« 


Estou puto!!! 

Saí um pouco à tarde, hoje, 

e me apareceu um gatuno na chácara 

que me roubou algumas guarirobas.. 

Eu mesmo jamais cortei nenhuma. 

Elas levaram mais de vinte anos 

pra chegar onde estão. 

A polícia já identificou o larápio. 

Quase o pegamos no flagra. 

Espero que ele encontre uma boa boca de pit bull 

que lhe mastigue a safadeza e 

lhe ensine a não meter a mão no alheio.. 


»


« 

Estou quase sempre, aqui.. 

Quando não é que me ocupo com minhas mocinhas 

lá nas verdes pastagens da barra do Piancó.. 

Elas ruminam o meu bem-viver. 

300909

 »


«


 Triste. 

Vinte dias cuidando do bezerrinho com a perninha engessada 

e o encontro morto essa manhã. 

Os casacas pretas já o rodeavam, famintos. 

A morte faz parte da vida diriam uns. 

Só perde quem tem dizia meu avô... 


Agora é seguir em frente: 

vacinas e vermífugos semana adentro! 


»


«


 Hoje foi SJRP! 

Amanhã será dia de lida. 

Matar cupins, 

Ir com meu pai no sítio da Cachoeira 

e arrematar 

passando a vista na caracada 

lá na barra do Piancó.. 

Meu gado vermelho engorda 

sob meus olhos marrons.. 

É pesado mas tem lá sua leveza. 

E a filosofia bovina 

é tão mais humana 

que a dos homens.. 

Rss!!! 


»


« 


Cheguei 'inda agorinha 

lá das bandas da Cachoeira de Cima. 

A vaquinha que faltava esta lá: 

displicente, barriguda. 

Não pariu.. apenas me olhou com aquela ternura 

de quem agradece a chuva. 

Também estou contente de tê-la encontrado 

em meio ao verde molhado da pastaria.. 


»


«


Foram apenas duas horas de exterminador: das 6h às 8h. 

Os cupins de hoje estão urbanizados: as casas deles agora 

têm vários andares. 

Alavanca, veneno de bomba e vedação. 

Mas a dadivosa chuva me pegou em trânsito. 

Amanhã eu continuo.. 

Com uma chuvinha boa dessas voltarei para as atividades de alcova. 

O som hipnótico das gotas caídas no telhado 

já pesam minhas pálpebras. 

Olho de soslaio pra rede da varanda... 


»


« 


Estou esperando pelo 3/4 do Fubá. 

Vendi o Churrasco pro Jeromim do Caixão 

e ele virá buscá-lo para a pesagem. 

Me dará saudades da sua cara de menino 

comendo mangas na minha mão. 

Que se há de fazer. Vou apenas desejar 

que ele siga na mesma boa vida no rodeio 

que o espera.. 


»

Chácara


« 


A moto-serra mastigou a cerca viva. 

O sansão do campo e sua força hercúlea caíram 

levantando uma sonora poeira. 

Tive de tirar... 

Pena: estava afrontando a rede elétrica lá da chácara.. 

Amanhã metrarei a madeira para o fogão à lenha. 

Agora é tempo de um banho gelado 

para resfriar o sol no meu lombo. ... 


»

Vacinação na Cachoeira de Cima


« 


Hoje foi dia de vacinação na Cachoeira de Cima. 

A nelorada de meu pai mais parecia uma onda branca, 

um fluxo bovino.. 

Foi duro mas a curralama nova 

e a peonada seguraram o tranco. 

Eu nos estojos os manejava como pistolas fossem: 

um verdeiro Doc Holliday.. Rss!! 

Vermífugos e vacinas... 

O velho Toni no comando e no pente. 

De tão contente na lida nem se lembrava 

dos seus 83 nas costas.. 

As mangas da chuva nos rodeando 

pelas baixadas.. 

Vida rural: porteiras, 

passagens.. 


»


«


480, 480, 490, e cinco.. 

"quinhenntus", 500, 500, vou vender... 

510, 510... Dou-lhe uma..., 

dou-lhe duas... Toc!!! 

Comprou e comprou bem! 

Parabéns e obrigado!! 

Pena: o último lance não foi meu. 

Outro levou o lote. 

Hoje estava uma carestia só 

lá no Cruzeta Leilões. 

Alguns lances e nada comprado. 

É assim mesmo. 

Há dias para vender, outros para comprar. 

Estou de volta, cedo. 

Irei amainar minhas idéias 

com a mais gelada lá do Cazuza.. 


»


« 


Soltei minhas meninas no vedado. 

O vento derrubou um angico 

na paraguaia do mato. 

Perigava que elas saíssem para a rodovia. 

Bonito vê-las mascando 

o aveludado capim novo. 

Pensei: 

essa deve ser a verdadeira felicidade.

Comer, ruminar, reproduzir... 

Outro dia nos verdes remansos 

da barra do Piancó... 


»


« 


"Seo" Cássio na enxada e na foice. 

Primeiro uma moita de monjolo 

e depois um repasse 

cortando a juazada de flor roxa. 

É preciso, 

antes que venham as bolas... 

Isso tudo no Lajeado. 

Amanhã continuamos no Piancó. 


»

« 

A Baronesa estava com um estrepe na pata.

Arisca nem queria vir pro curral

pra me deixar ver melhor.

Pensei:

eu uso de astúcia que ela vem..

Peguei um tico de ração cheirosa

e fui descendo a vargem.

Lá estava ela: suspeitosa..

Chamei: Baronesa, vem, vem...

E ela veio com

um vagar manquitolado,

farejando a ração.

Coloquei no chão e ela foi abocanhando..

Deixei.

Rodeei e fui olhar o inchaço.

Falei:

vambora menina!

Vem, vem..

E ela veio.

Lerda.

Vez por outra me olhava

como pra saber se eu ainda estava lá.

Mas no fundo ela pensava:

tem mais lá adiante.

Fechei no tronco,

curei.

Disse pra ela:

Baronesa vem..

Forni o cocho com um pouco mais da granulada.

Fui embora.

Ela ficou me olhando sumir lá na curva

enquanto mascava o tempo.

Olhos mansos,

majestosa..


»

« 


Abriu. 

Estava um barradão bonito no começo da manhã. 

Enquanto os róseos dedos da madrugadora aurora surgiam

puxados pelos berros da caracada, 

as nuvens foram se dissipando 

até clarear por completo. 

O gado me rodeou farejando o sal 

que eu colocava no cocho. 

Olhei: nenhumas novidades. 

Faltaram as duas mojadas. 

Levantei a vista e as vi lá na cabeceira. 

Lentas, sossegadas. Fui lá. 

A parição é breve, pensei. 

Agora estou em casa. 

Soprando o café preto 

pra mastigar o pão de queijo. 

Outra semana começa. 


»


« 


É chegado o tempo das amoras sanguíneas. 

Quase tão doces quanto a garrafa de grapette 

da minha infância. 

Passei tempo na sombra da amoreira 

puxando galhos e degustando. 

Quando caia uma frutinha no chão eu pensava: 

a deusa ceres está com inveja de mim e também quer. 

Mais tarde vou pegar um lençol velho. 

Balouçarei a árvore e farei um estoque 

para o mais delicioso dos sucos. 

Guardarei até algumas pedrinhas de gelo rubro 

para adoçar a vodca finlandesa.. 


»


« 


A Pretinha teta de cabaça pariu um bezerrão. 

Sonso, mole.. 

deu pra não achar os peitos da mãe.
Lá fui eu apeitar. 

Boca abaixo, 

mamadeira 

e o danado continuou lerdo 

nesses dois dias passados. 

Hoje ele resolveu: mamou, 

soltou aquela bostinha amarela 

característica 

e acompanhou a mãe. 

Soltei os dois 

e lá foram eles pasto acima. 

Ele em zigue-zagues 

e ela ciosa 

como uma mãe levando o filho na escola, 

no primeiro dia de aula. 

Amanhã será outro dia. 

Volto lá pra passar a vista na destoca 

e aproveito pra ver se o danado mamou sozinho. 

Coisas rurais, 

horizontes verdes... 


»


« 


Pulei cedo e fui passar a vista na caracada.
Saudoso eu estava do manejo,
da berração.
Contornei a capoeirinha
e fui chamando: Vem moirinha, vem cigana,
vem campeão.. Vem!
Reuni e fui tocando.
De começo já percebi duas paridas: um bezerrão malhado, uma terneirinha roxa.
E foi.
Fechei, apartei, curei bicho no umbigo,
passei remédio pra caganeira...
Minhas meninas me rodeavam: Olhares mansos,
confiados, majestosos.
Dei mais um repasse e pensei: sem mais novidades.
E elas foram passando uma a uma pela porteira.
Conta certa, falei pro meu umbigo.
Sol alto eu voltei pra terra dos bancos..
Agora é seguir o rastro oloroso do almoço.
É bom estar de volta
aos meus domínios,
à barra do Piancó,
à vidinha besta desse canto
de Minas
.

»

Cachoeira de Cima


« 

Pois é amigo Keys.. 

Quando o peixe chegou na mesa 

também junto chegou o meu pai. 

Havia gado alongado no corredor. 

Mal mastiguei e rumamos lá pras bandas da Cachoeira de Cima. 

Foi difícil recolher a nelorada porteira adentro. 

A paraguaia havia rompido. 

Coisas de estouro. 

Tiro de caçador ou miado de onça... 

Quem há de saber. 

Amanhã ele irá para reparos 

e conferência. 

Eu? 

Vou tomar um banho, agora que cheguei, 

e sair pra escutar o burburinho das mariposas 

de asas prateadas. 

Vamos??? 

»


« 


Não adiantou o carinho. 

Nem o capinzinho verde, 

nem a sombra.. 

Nem mesmo os remédios 

aplicados ao tempo e a hora. 

A Bananinha morreu! 

Depois das chifradas da Cafuza 

que lesionaram seu dorso 

ela se perrengou mais 

e mais.. 

Acabou por perder 

aquele brilho manso dos olhos. 

Se foi.. 

Lá pro céu das vacas 

onde as pradarias são sempre verdes 

de forrageiras macias. 

Decerto encontrará outros mugidos alegres por lá.. 

Deixou uma terneirinha miúda 

bradando berros. 

Tão nova que ainda nem sei 

como alimentá-la. 

Que se há de fazer?! 

O alento é a lembrança de meu avô 

que sempre dizia: 

meu filho, 

só perde quem tem! .. 


»


«

 Tem duas semanas que matei a Cafuza. 

Mais três quilos ela pesava vinte arrobas. 

Impetuosa, enfurecida, 

soltando fumaça pelas ventas, 

ela demorou a morrer. 

Trabalho que deu para o açougueiro: 

vinte ou mais machadadas. 

Fiquei um pouco entristecido, 

mas foi preciso. 

A malvada matou a Bananinha 

e teimava em machucar as outras vacas 

com seus cornos espanholados. 

Meus amigos cozinheiros 

não souberam me dizer como aproveitar o vitelo, 

pena. 

A cachorrada e a gataria do terreiro 

agradeceram com sonoros sorrisos mialatidos. 

E assim segue a minha vida rural 

alheia aos meus anseios de menino urbano. 

É viver e pronto: 

as metrópoles também têm suas maldades.. 

E maldades também têm lá 

sua serventia.. 

»


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Voltando do Piancó. 

Sigo na direção do vento. 

As cozinhas da cidade 

transbordam deliciosos olores. 

Ora arroz com suã, ora carne assada, 

ora molho de frango. 

Meu estômago me guia. 

É domingo. 

E estou voltando pra casa. 


»


« 

A garoa nos pegou descendo a vargem. 

Meu pai e eu. 

Vem, vem, 

ôooo, vem, 

ohôoo, vem... 

E a vacada seguindo adiante, 

reunida. 

Fecha! 

Vem moirinha, 

vem campeão, vem duquesa... 

E foram entrando na manga do curral. 

Seduzidas pelo costume 

e pelo cheiro oloroso da polpa cítrica 

que eu havia colocado no cocho. 

Enxuguei meus óculos 

enquanto meu pai passava a vista na bezerrada. 

Quase nenhumas novidades. 

Remedinho pra curso, 

vitamina prum mirrado 

e só. 

Foi mesmo um risco n'água 

e já voltávamos lá das bandas do Piancó.

 Somos bons na lida. 

Juntos melhoramos 

a perfeição de entender o gado, 

o tempo 

e a vida.. 

Odes rurais, 

significâncias... 

»


« 


Cuido de vacas.
O destino quis assim.
Tem vacas impetuosas, arredias,
malvadas..
E outras dóceis, ternas,
mansas no mugido e no olhar.
Fui passar a vista na caracada esta tarde.
De súbito já percebi uma parida.
Acerquei-me com cautela
e a danada bufava,
arrancava terra com os cascos
protegendo a cria.
Olhei os peitos: dois mamados.
Um bezerrão vermelho, sadio.
Pensei: segunda-feira fecho tudo
e curo o umbigo.. 
Desci beirando a vargem 
e percebi uma negrinha se distanciando da manada. 
Fui negaceando, seguindo.. 
Estacou do lado de uma moita alta. 
Aproximei-me. 
Lá estava, uma terneirinha preta. 
Magrinha, coitada. 
E nada de mamar. 
Os peitões da vaca estavam em riste, 
cheios. 
Tetões de cabaça. 
Mas a ela é mansa então eu levantei a bezerrinha 
e fui tocando as duas para o curral. 
Levou hora para chegarmos lá. 
Uma zambetando, 
a outra protegendo. 
Fechei no tronco e fui apeitar. 
Aos poucos e esquivando dos coices 
consegui que a bichinha pegasse um peito. 
Que faminta tadinha.. 
E foi indo ela pegou gosto, 
pegou outro... 
Foi se ajeitando e encheu a pança. 
Soltei pra manguinha. 
Saí de lá noite feita. 
E assim é: 
a vida se renovando debaixo dos meus olhos. 
Eu cuidando das vacas 
e elas me ensinando filosofias.. 
Caminhos e vírgulas: 
encantamentos.


 »


« 


Quando o sol esfriou um pouco 

fui ver minhas mocinhas. 

E havia mesmo novidades: 

a Roxinha pariu um bezerrão vermelho. 

Nem um dia de vida 

já levantou me dando coices 

e berrando desafinado. 

A mãe veio. 

Levei os dois pro curral 

e curei o umbigo. 

Lá no longe o sol ia se pondo. 

Rajas alaranjadas 

parecidas com cabeleiras de ruivas nórdicas. 

E voltei com uma sede daquelas. 

Bebi água do pote: friinha.. 

Amanhã serão outras andanças, 

outros caminhos.. 


»


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Pulei cedo.
Menos de cinco, acho.
Fui correr a vista na baixada do mangue.
Apertei minhas polainas
e entoei meu canto habitual de juntar o gado.
E se seguiu o tropel descendo a vargem.
A caracada estava saudosa do sal branco.
Me rodearam
enquanto eu fornia o cocho.
Contei, faltavam algumas..
Lá fui eu na beirada da capoeirinha
juntar as desgarradas.
Logo vi uma pretinha escoiceado o ar
e bramindo as orelhas.. 
Pensei: bicheira. 
E era. 
Fechei no tronco, 
curei... 
Agradei com uma raçãozinha cheirosa. 
Depois peguei a estrada de volta. 
Lábios secos os meus de vontade 
da água esquecida de levar. 
Agora é pensar na pacatez do domingo 
deitado lá na rede da varanda. 
Sentir o ventinho fresco do guarirobal 
elucubrando coisas com o note no colo. 
Quem sabe tem futebol no fim da tarde?! 
Eita vidinha besta 
essa minha.. 
Rsss!!!

 »


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O vento da tarde me penteava os cabelos
Eu seguia pelas veredas sinuosas da vargem do Piancó.

Monjolos,  juás e malícias me afastavam
do pensar no gado. 
Pragas invencíveis, sobreviventes às enxadas e venenos..

O suor escorria inundando todos os meus olhos.

O sol de fogo cozinhando meus miolos.


Divagava pelos anos passados sob meus pés:

Vacas e novilhas nascidas, vendidas;
Bezerrada desmamada, marcada, descornada...

Eu olhava minhas botinas velhas e seguia adiante.
Mais um pouco pra antiga sede.
Uma pinguela de aroeira caída sobre
O córrego, umas braças mais de quintal.

Virei menino nesse sendeiro.
Fui buscar uma foice emprestada..
Emprestei também pedaços de
Passado. E nuvens de lembranças das
Curvas da vida.

«




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Minha botina toda molhada com o orvalho 

seguia eu vargem acima: 

Vem, vem; 

vem catoca, vem campeão, vem duquesa... 

O sol, cauteloso, começava a clarear a campina 

com seus cílios de fogo.. 

Aos poucos o gado foi saindo do malheiro 

e descendo lá pro curralzinho.. 

Seguiam o alarido do meu chamado 

e a berração da vacada desencontrada das crias. 

Uma parida, uma com a pata machucada, 

outra com baba nas ventas.. 

Fechei, 

apeitei, 

curei a pata com astúcia e unguento.. 

A babação atinei de ser cobra. 

Corri na cidade buscar o antiofídico. 

Meu amigo Alberto me disse leva 

mas passo lá e dou uma olhada antes.. 

Ele olhou. 

Não era nada. 

Só brabeza da tinhosa nos fazendo subir nas cercas.. 

Soltei a danada já era mais de onze. 

E lá foi ela cheia de urgências 

berrando vereda afora atrás da manada. 

Outro dia no meio da caracada, 

outro dia engordando o gado com meus olhos. 

Vida rural: 

horizontes alongados...


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