quarta-feira, 29 de julho de 2015

A chuva continua, ainda. Chorando todos os meus risos. Colorindo de verde o horizonte dos meus olhos..

A Fortuna havia me escapado. Passou dois ou três dias pastando lá na vargem do meu vizinho. Foi um custo trazê-la de volta. Tive de fechar todo o gado no curral para depois ir no encalço da danada. Eu chamando e ela negaceando, desconfiada, astuciosa. O jeito foi esperar o tempo dela. Ao se ver sozinha foi beirando cercas até emparelhar com o gado fechado. Abri a cancela e ela entrou. Agora estou mais tranquilo.Passarei meu dia mais confortado. Embora um pouco mais magra a Fortuna está de volta aos meus domínios.Poderei por fim tomar minha Pirassunungasossegado. Foi um presente dos Santos Reis protetores das minhas mimosas. E da barra do Piancó.

Minha cabeça meneava e meus olhos varados serpenteavam a estrada.A poeira tinha a cor do por-do-sol.Um ocaso sanguíneo, granulado, suspenso no ar.Eu vinha subindo a vargem da Vertentinha com as rodas do Carro rangendo saudades.Uma légua e meia, ainda, das caríciasde siá Dora.Do fogo ateado no rabo dofogão-a-lenha.Do alento amoroso do catrealto na cozinha de pau-a-pique.

Estou cativo. 
Vivem a minha vida, 
não a vivo eu. 
Deambulo num mundo de títeres. 
Linhas quase visíveis manipulam 
o meu devir. 
Sinto prazeres que não são meus, 
tenho vontades artificiais 
inoculadas nos meus sentidos. 
Meu pouco por cento de lucidez juvenil 
se esvai com o vento inexorável dos anos. 
Neves de outono prateiam meus cabelos 
enquanto o bridão do destino 
já não incomoda tanto minhas gengivas. 
Fui um deus 
com minha ousadia, 
com meus sonhos,
com a minha liberdade. 
Sou agora 
apenas um pobre diabo.