terça-feira, 26 de março de 2013


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Cuido de vacas.
O destino quis assim.
Tem vacas impetuosas, arredias,
malvadas..
E outras dóceis, ternas,
mansas no mugido e no olhar.
Fui passar a vista na caracada esta tarde.
De súbito já percebi uma parida.
Acerquei-me com cautela
e a danada bufava,
arrancava terra com os cascos
protegendo a cria.
Olhei os peitos: dois mamados.
Um bezerrão vermelho, sadio.
Pensei: segunda-feira fecho tudo
e curo o umbigo.. 
Desci beirando a vargem 
e percebi uma negrinha se distanciando da manada. 
Fui negaceando, seguindo.. 
Estacou do lado de uma moita alta. 
Aproximei-me. 
Lá estava, uma terneirinha preta. 
Magrinha, coitada. 
E nada de mamar. 
Os peitões da vaca estavam em riste, 
cheios. 
Tetões de cabaça. 
Mas a ela é mansa então eu levantei a bezerrinha 
e fui tocando as duas para o curral. 
Levou hora para chegarmos lá. 
Uma zambetando, 
a outra protegendo. 
Fechei no tronco e fui apeitar. 
Aos poucos e esquivando dos coices 
consegui que a bichinha pegasse um peito. 
Que faminta tadinha.. 
E foi indo ela pegou gosto, 
pegou outro... 
Foi se ajeitando e encheu a pança. 
Soltei pra manguinha. 
Saí de lá noite feita. 
E assim é: 
a vida se renovando debaixo dos meus olhos. 
Eu cuidando das vacas 
e elas me ensinando filosofias.. 
Caminhos e vírgulas: 
encantamentos.


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